
~ Poemas de Rimbaud ~
~ MA BOHÈME (Fantasie) ~
E lá me ia, as mãos nos bolsos furados, E meu casaco era também o ideal.Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!
Minha única calça estava em frangalhos— Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu iaDesfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia,Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.
Sentado à beira das estradas eu as ouvia,Belas noites de setembro em que eu sentiaO orvalho em meu rosto como um vinho forte;
Quando compondo em meio a sombras fantásticas,Como uma lira eu puxava os elásticosDe meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!
~ TERCEIRO SONETO DE "LES STUPRA" ~
Franzida e obscura como um ilhós Violeta, Ela respira, humilde,entre a relva Rociada Ainda do amor que desce a branda Rampa das Brancas nádegas até o coração da Greta.
Filamentos iguais a lágrimas de leite Choraram sob o vento atroz que os Arrecada E os impele através de marnas Arruivadas Até perderem-se na fenda dos Deleites.
~ NO CABARÉ-VERDE ~às cinco horas da tarde
Oito dias a pé, as botas rasgadasNas pedras do caminho: em Charleroi arrio.— No Cabaré-Verde: pedi umas torradasNa manteiga e presunto, embora meio frio.Reconfortado, estendo as pernas sob a mesaVerde e me ponho a olhar os ingênuos motivosDe uma tapeçaria. — E, adorável surpresa,Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos— Essa, não há de ser um beijo que a amedronte!— Sorridente me trás as torradas e um monteDe presunto bem morno, em prato colorido;Um presunto rosado e branco, a que perfumaUm dente de alho, e um chope enorme, cuja espumaUm raio vem dourar do sol amortecido. Outubro de 1870 ~ CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA ~
Mocidade presa A tudo oprimida Por delicadeza Eu perdi a vida. Ah! Que o tempo venha Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa, Que ninguém te veja: E sem a promessa De algum bem que seja. A ti só aspiro. Augusto retiro.
Tamanha paciência Não irei esquecer. Temor e dolência, Aos céus fiz erguer. E esta sede estranha A ofuscar-me a entranha. Qual o Prado imenso Condenado a olvido, Que cresce florido De joio e de incenso Ao feroz zunzum das Moscas imundas.
~ SOBRE O POEMA “SENSATION” ~
Este poema de grande sensibilidade não tinha título quando foi enviado a Théodore de Banville. A versão definitiva traz o título “Sensation”.
Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiersPicoté par les blés, fouler l’herbe menue:Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…Mais un amour immense entrera dans mon âme,Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémienPar la Nature, — heureux comme avec une femme!
(1870)
oooo0000oooo
Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei, Roçando os trigais, pisando a relva miúda: Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei: E o vento banhando-me a cabeça desnuda.Nada falarei, não pensarei em nada: Mas um amor imenso me irá envolver, E irei longe, bem longe, a alma despreocupada, Pela Natureza — feliz como com uma mulher.
~ A PROPÓSITO DE “O NAVIO FANTASMA” ~(LE BATEAU IVRE)
Enquanto esperava uma carta de Verlaine, Rimbaud resolveu escrever um grande poema que seria a ilustração direta de sua nova ética, uma obra indiscutivelmente de fôlego. Delahaye o viu, deitado num barco, ao pé do Velho Moinho, o rosto contra a água, interrogando o fundo do rio, onde, entre as manchas de sol, a corrente fazia ondular a longa cabeleira das plantas aquáticas. Ele havia apenas conservado a idéia do tema de O Navio Fantasma — que Leon Dierx acabava de tratar há pouco no Parnasse Contemporain —, ou, mais exatamente, ele o incorporara, pois o barco sem rumo pelo espaço sideral, sob o céu implacável ou nas profundezas glaucas, é ele, sua alma, liberada enfim de suas amarras.
E desde então no Poema do Mar mergulhei,Cheio de astros, latescentes, devorandoOs verdes céus, onde às vezes se vê,Lívido e feliz, um sonhador boiando.
Onde tingindo de repente o infinito, delíriosE ritmos lentos sob o dia em esplendorMais fortes que o álcool, mais vastos que nossas liras,Fermentam as sardas amargas do amor!
Sei dos céus rasgando-se em raios, e das trombas,Das ressacas e da noite e das correntes,Da Alba exaltada igual a um bando de pombas,E o que o homem acreditou ver viram meus olhos videntes!
É impossível ouvir essa delirante sinfonia sem ser tomado de vertigem, arrastado para fora da órbita terrestre, para o absoluto, para fora do mundo. Ninguém havia feito coisa igual; ninguém o fará jamais. No fim, o Poeta, não conseguindo manter a intensidade da visão, consumido em seu próprio frenesi, explode literalmente em pleno céu:
Oh, que minha quilha estoure! Que eu ganhe o mar!
Tudo, então, está terminado: falta-lhe a coragem de continuar a viagem, as forças o abandonam, ele se deixa levar, não passa do casco negro do barco destruído.
E se anseio mares de Europa, é a poçaEscura e fria onde ao crepúsculo perfumadoUma criança se abaixa triste e soltaQual borboleta de maio um barco delicado.
Com uma clareza profética, Rimbaud, podemos dizer, previu seu próprio destino...
________Nota: Preferi o título “O Navio Fantasma” do que “O Barco Bêbado”, como a maioria traduz esse poema de Rimbaud.Nota 2: Citei apenas algumas estrofes, porque a poesia é muito longa.
__________Bibliografia: Vie d'Arthur Rimbaud, Hachette, Paris, 1962.~ Arthur Rimbaud (1854-1891) ~
~ MA BOHÈME (Fantasie) ~
E lá me ia, as mãos nos bolsos furados, E meu casaco era também o ideal.Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!
Minha única calça estava em frangalhos— Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu iaDesfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia,Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.
Sentado à beira das estradas eu as ouvia,Belas noites de setembro em que eu sentiaO orvalho em meu rosto como um vinho forte;
Quando compondo em meio a sombras fantásticas,Como uma lira eu puxava os elásticosDe meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!
~ TERCEIRO SONETO DE "LES STUPRA" ~
Franzida e obscura como um ilhós Violeta, Ela respira, humilde,entre a relva Rociada Ainda do amor que desce a branda Rampa das Brancas nádegas até o coração da Greta.
Filamentos iguais a lágrimas de leite Choraram sob o vento atroz que os Arrecada E os impele através de marnas Arruivadas Até perderem-se na fenda dos Deleites.
~ NO CABARÉ-VERDE ~às cinco horas da tarde
Oito dias a pé, as botas rasgadasNas pedras do caminho: em Charleroi arrio.— No Cabaré-Verde: pedi umas torradasNa manteiga e presunto, embora meio frio.Reconfortado, estendo as pernas sob a mesaVerde e me ponho a olhar os ingênuos motivosDe uma tapeçaria. — E, adorável surpresa,Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos— Essa, não há de ser um beijo que a amedronte!— Sorridente me trás as torradas e um monteDe presunto bem morno, em prato colorido;Um presunto rosado e branco, a que perfumaUm dente de alho, e um chope enorme, cuja espumaUm raio vem dourar do sol amortecido. Outubro de 1870 ~ CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA ~
Mocidade presa A tudo oprimida Por delicadeza Eu perdi a vida. Ah! Que o tempo venha Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa, Que ninguém te veja: E sem a promessa De algum bem que seja. A ti só aspiro. Augusto retiro.
Tamanha paciência Não irei esquecer. Temor e dolência, Aos céus fiz erguer. E esta sede estranha A ofuscar-me a entranha. Qual o Prado imenso Condenado a olvido, Que cresce florido De joio e de incenso Ao feroz zunzum das Moscas imundas.
~ SOBRE O POEMA “SENSATION” ~
Este poema de grande sensibilidade não tinha título quando foi enviado a Théodore de Banville. A versão definitiva traz o título “Sensation”.
Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiersPicoté par les blés, fouler l’herbe menue:Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…Mais un amour immense entrera dans mon âme,Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémienPar la Nature, — heureux comme avec une femme!
(1870)
oooo0000oooo
Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei, Roçando os trigais, pisando a relva miúda: Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei: E o vento banhando-me a cabeça desnuda.Nada falarei, não pensarei em nada: Mas um amor imenso me irá envolver, E irei longe, bem longe, a alma despreocupada, Pela Natureza — feliz como com uma mulher.
~ A PROPÓSITO DE “O NAVIO FANTASMA” ~(LE BATEAU IVRE)
Enquanto esperava uma carta de Verlaine, Rimbaud resolveu escrever um grande poema que seria a ilustração direta de sua nova ética, uma obra indiscutivelmente de fôlego. Delahaye o viu, deitado num barco, ao pé do Velho Moinho, o rosto contra a água, interrogando o fundo do rio, onde, entre as manchas de sol, a corrente fazia ondular a longa cabeleira das plantas aquáticas. Ele havia apenas conservado a idéia do tema de O Navio Fantasma — que Leon Dierx acabava de tratar há pouco no Parnasse Contemporain —, ou, mais exatamente, ele o incorporara, pois o barco sem rumo pelo espaço sideral, sob o céu implacável ou nas profundezas glaucas, é ele, sua alma, liberada enfim de suas amarras.
E desde então no Poema do Mar mergulhei,Cheio de astros, latescentes, devorandoOs verdes céus, onde às vezes se vê,Lívido e feliz, um sonhador boiando.
Onde tingindo de repente o infinito, delíriosE ritmos lentos sob o dia em esplendorMais fortes que o álcool, mais vastos que nossas liras,Fermentam as sardas amargas do amor!
Sei dos céus rasgando-se em raios, e das trombas,Das ressacas e da noite e das correntes,Da Alba exaltada igual a um bando de pombas,E o que o homem acreditou ver viram meus olhos videntes!
É impossível ouvir essa delirante sinfonia sem ser tomado de vertigem, arrastado para fora da órbita terrestre, para o absoluto, para fora do mundo. Ninguém havia feito coisa igual; ninguém o fará jamais. No fim, o Poeta, não conseguindo manter a intensidade da visão, consumido em seu próprio frenesi, explode literalmente em pleno céu:
Oh, que minha quilha estoure! Que eu ganhe o mar!
Tudo, então, está terminado: falta-lhe a coragem de continuar a viagem, as forças o abandonam, ele se deixa levar, não passa do casco negro do barco destruído.
E se anseio mares de Europa, é a poçaEscura e fria onde ao crepúsculo perfumadoUma criança se abaixa triste e soltaQual borboleta de maio um barco delicado.
Com uma clareza profética, Rimbaud, podemos dizer, previu seu próprio destino...
________Nota: Preferi o título “O Navio Fantasma” do que “O Barco Bêbado”, como a maioria traduz esse poema de Rimbaud.Nota 2: Citei apenas algumas estrofes, porque a poesia é muito longa.
__________Bibliografia: Vie d'Arthur Rimbaud, Hachette, Paris, 1962.~ Arthur Rimbaud (1854-1891) ~
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Biografia
Vitalino Pereira dos Santos (Ribeira dos Campos, Caruaru PE 1909 - Alto do Moura, Caruaru 1963). Ceramista popular e músico. Filho de lavradores, ainda criança começa a modelar pequenos animais com as sobras do barro usado por sua mãe na produção de utensílios domésticos, para serem vendidos na feira de Caruaru. Ele cria, na década de 1920, a banda Zabumba Vitalino, da qual é o tocador de pífano principal. Muda-se para o povoado Alto do Moura, para ficar mais próximo ao centro de Caruaru.
Sua atividade como ceramista permanece desconhecida do grande público até 1947, quando o desenhista e educador Augusto Rodrigues (1913 - 1993) organiza no Rio de Janeiro a 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana, com diversas obras suas. Segue-se uma série de eventos que contribuem para torná-lo conhecido nacionalmente e são publicadas diversas reportagens sobre o artista, como a editada pelo Jornal de Letras em 1953, com textos de José Condé, e na Revista Esso, em 1959.
Em 1955, integra a exposição Arte Primitiva e Moderna Brasileiras, em Neuchatel, Suíça. O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e a Prefeitura de Caruaru editam o livro Vitalino, com texto do antropólogo René Ribeiro e fotografias de Marcel Gautherot (1910 - 1996) e Cecil Ayres. Nessa época, conhece Abelardo Rodrigues, arquiteto e colecionador, que forma um significativo acervo de peças do artista, mais tarde doadas para o Museu de Arte Popular, atual Museu do Barro de Caruaru.
Mestre Vitalino, em 1960, realiza viagem ao Rio de Janeiro e participa da Noite de Caruaru, organizada por intelectuais como os irmãos João Condé e José Condé, ocasião em que suas peças são leiloadas em benefício da construção do Museu de Arte Popular de Caruaru. Participa de programas de televisão e exibições musicais, comparece a eventos e recebe diversas homenagens, como Medalha Sílvio Romero. Nessa ocasião, a Rádio MEC realiza a gravação de seis músicas da banda de Vitalino, lançadas em disco pela Companhia de Defesa do Folclore Brasileiro na década de 1970. Em 1961, atendendo a pedido da Prefeitura de Caruaru, doa cerca de 250 peças ao Museu de Arte Popular, inaugurado nesse ano.
Em 1971, é inaugurada no Alto do Moura, no local onde o artista residiu, a Casa Museu Mestre Vitalino. No espaço, administrado pela família, estão expostas suas principais obras, além de objetos de uso pessoal, ferramentas de trabalho e o rústico forno a lenha em que fazia suas queimas.